Radar Legislativo da Indústria – 17 a 21 de fevereiro de 2025

Radar Legislativo da Indústria – 17 a 21 de fevereiro de 2025

Conheça as discussões desta semana que tratam de desenvolvimento, tecnologia, inovação e sustentabilidade, entre outros temas relacionados à atuação da ABDI.

PANORAMA DA SEMANA

Câmara dos Deputados poderá votar ainda esta semana o Projeto de Lei 6.969-B/2013, conhecido como Lei do Mar, que visa à proteção de ecossistemas marinhos. Além disso, está na pauta o projeto que criminaliza o uso de inteligência artificial para criar conteúdos falsos de nudez, prática conhecida como deepnude. O texto também propõe o aumento das penas para crimes ambientais, especialmente aqueles relacionados a queimadas ilegais. O Senado deverá instalar suas comissões na próxima quarta-feira (19).

presidente Lula participou, nesta segunda-feira (17), em Angra dos Reis (RJ), da Cerimônia de Retomada da Indústria Naval e Offshore Brasileira, no âmbito do Programa de Renovação da Frota Naval do Sistema Petrobras. O evento marca um importante passo para a revitalização do setor naval no país.

Na terça-feira (18), ocorre a reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que discutirá a possível entrada do Brasil na Opep+, grupo de países exportadores de petróleo. A decisão pode ter impactos significativos na política energética e na economia brasileira.

Ao final deste Radar, o analista de Produtividade e Inovação da ABDIJorge Luís Ferreira Boeira, apresenta o artigo: “Oportunidades e desafios da transição energética: o caso do hidrogênio”

Para Boeira: “Para que o Brasil se consolide como um ator relevante na cadeia global do hidrogênio verde, é necessário desenvolver tanto a capacidade de produção quanto os usos finais dessa tecnologia, além de garantir a fabricação de equipamentos estratégicos para essa nova indústria”.

Implementação das leis de transição energéticas

Ministérios apresentaram à Câmara dos Deputados os desafios de regulamentação das novas leis da transição energética e projetaram uma série de vantagens socioeconômicas e ambientais para o Brasil.

A Lei do Combustível do Futuro, o Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, e as leis que tratam do mercado de carbono (Lei 15.042/24), do Programa de Aceleração da Transição Energética, da energia eólica de alto-mar (Lei 15.097/25) e que promovem ajustes no RenovaBio – Política Nacional de Biocombustíveis (Lei 15.082/25) começaram a valer entre o segundo semestre de 2024 e o início deste ano. No entanto, ainda dependem de atos do Executivo para saírem do papel.

Confira a apresentação de Pietro Mendes , Secretário Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis

O secretário de Petróleo e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Pietro Mendes, deu o exemplo dos combustíveis do futuro para mostrar a complexidade da tarefa do governo, mas garantiu que o assunto é tratado com urgência.

“Nós mapeamos 39 atos para poder regulamentar o combustível do futuro, contando resolução da ANP [Agência Nacional do Petróleo], resolução da Anac [Agência Nacional da Aviação Civil] e alterações na RenovaCalc que reflitam todas essas rotas e todas essas matérias-primas novas. Também portaria do ministério, análise de impacto regulatório, relatórios técnicos, enfim, uma série de atos que nós precisamos fazer”, disse.

Saiba mais.

Um ano da Nova Indústria Brasil (NIB) é celebrado com lançamento das metas da Missão 6 e investimentos na indústria da defesa

O Governo Federal lançou as metas da Missão 6 da Nova Indústria Brasil (NIB). O foco é promover o uso de tecnologias estratégicas para a soberania e defesa nacionais. Com investimentos públicos e privados de R$112,9 bilhões, a missão busca ampliar o domínio brasileiro em áreas como radares, satélites e foguetes.

“Hoje, lançamos a sexta missão: defesa e a parte da indústria da defesa, incluindo a parte aeronáutica. A meta é chegarmos a 55% de domínio das tecnologias de interesse para a soberania e defesa nacional até 2026, e 75% até 2033. Atualmente, estamos em 42,7%”, listou Alckmin ao reforçar que uma indústria mais verde e sustentável favorece a descarbonização e eficiência energética do setor. Além disso, para o vice-presidente, a Missão 6 da NIB vai impulsionar o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&DI), assim como alavancar o volume de exportações de produções nacionais.

Alckmin enfatizou que, paralelo à recriação do Conselho Nacional do Desenvolvimento Industrial (CNDI) e do um ano completado pela Nova Indústria Brasil (NIB), o lançamento da Missão 6 permite o mapeamento das cadeias produtivas. “A NIB demonstra uma indústria mais inovadora e digital, mais verde e sustentável, que implementa todas as medidas de descarbonização e eficiência energética. É uma indústria mais exportadora, mais competitiva e produtiva”, esclareceu.

Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT) entra em operação

O Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT) entra em operação nesta segunda-feira (17/02). Criado pela Lei no 14.902/2024, que instituiu o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER), o fundo vai captar recursos oriundos de políticas industriais para serem aplicados em projetos prioritários de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico, com foco na descarbonização e transição energética.

“Com a entrada em operação do FNDIT, damos mais um passo na direção da mobilidade verde, da inovação e da descarbonização. O fundo representa um importante apoio financeiro aos programas e aos projetos prioritários de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico”, afirma o vice-presidente e ministro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin. Saiba mais.

Regulação dos vídeos sob demanda

O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional (CCS) realizou audiência pública em que discutiu os desafios da regulação dos vídeos sob demanda no Brasil. Os debatedores apontaram a necessidade, por exemplo, da instituição de mecanismos que garantam a competitividade desses serviços e de regras de convivência entre as produtoras brasileiras e estrangeiras.

O chamado VoD (video on demand) é um sistema de conteúdo em vídeos em que o usuário pode escolher o que assistirá por meio de um catálogo e consumir esse conteúdo onde e quando quiser.

O modelo é utilizado em plataformas como Netflix, YouTube e PrimeVideo, entre outras. Uma das propostas é o PL 2.331/2022, já aprovada pelo Senado e enviada à Câmara. O texto prevê uma contribuição de até 3% sobre a receita bruta anual das plataformas de streaming em todo território nacional. Conforme o texto, os recursos seriam repassados ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

As empresas com receita bruta anual inferior a R$ 4,8 milhões ficariam isentas. Quando pelo menos metade do conteúdo oferecido pelas plataformas for nacional, o tributo será reduzido em até 60%. Os conteúdos jornalísticos ou estritamente educacionais também seriam isentos. Saiba mais.

Marcos Legais da transição energética e outras leis da NIB

Com o objetivo de impulsionar a indústria nacional até 2033, o programa Nova Indústria Brasil ou NIB, apresentada através da Resolução CNDI/MDIC nº 1, de 6 de julho de 2023, busca utilizar instrumentos como subsídios, empréstimos com juros reduzidos e ampliação de investimentos federais, além de incentivos tributários e fundos especiais para estimular alguns setores da economia e triplicar participação da produção nacional no segmento de novas tecnologias.

O programa prevê a aplicação de R$ 300 bilhões até 2026.). No Brasil, após um ano da NIB, tivemos a aprovação de marcos legais, tais como os citados na tabela a seguir:

Medidas Legislativas da Nova Indústria Brasil – NIB
ProgramaLei sancionada ou Projeto de lei
Programa Mobilidade Verde e Inovação – MOVERLei nº 14.902 de 27 de junho de 2024 Regulamento:Decreto nº 12.214, de 9 de outubro de 2024
Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de CarbonoLei nº 14.948, de 2 de agosto de 2024
Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC)Lei nº 14.990, de 27 de setembro de 2024
Combustível do FuturoLei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024
Mercado de CarbonoLei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024
Marco regulatório da energia elétrica em alto-mar (eólicas offshore)Lei nº 15.097/2025
Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten)Lei nº 15.103/2025Institui o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten); e altera as Leis nºs 13.988, de 14 de abril de 2020, 11.484, de 31 de maio de 2007, 9.991, de 24 de julho de 2000, e 9.478, de 6 de agosto de 1997.
Política industrial para o setor de tecnologias da informação e comunicação e para o setor de semicondutoresLei nº 14.968, de 11 de setembro de 2024
Depreciação acelerada para máquinas e equipamentosLei nº 14.871, de 28 de maio de 2024 Decreto nº 12.175, de 11 de setembro de 2024
Letra de Crédito do Desenvolvimento (LCD)Lei nº 14.937, de 26 de julho de 2024 Regulamento: Resolução CMN nº 5.169, de 22 de agosto de 2024

Sessão solene 20 anos da ABDI e realizações da NIB

O Deputado Federal Jonas Donizette (PSB/SP) protocolou Requerimento de sessão solene para celebrar os 20 anos da ABDI e os resultados da Nova Indústria Brasil (NIB). A data da realização da sessão no plenário Ulysses Guimarães vai depender da definição da Mesa da Câmara dos Deputados.

O Deputado Jonas Donizette esteve em visita ao Presidente da ABDI, Ricardo Cappelli, no dia 04 de fevereiro de 2025

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Artigo Técnico

Oportunidades e desafios da transição energética: o caso do hidrogênio

Por Jorge Luís Ferreira Boeira – Analista de Produtividade e Inovação Unidade de Nova Economia e Indústria Verde da ABDI

Esse texto é fruto da minha participação, representando a ABDI, em audiência pública na Câmara dos Deputados “Hidrogênio: oportunidades para a indústria brasileira” no contexto da transição energética, da descarbonização da economia e do combate às mudanças climáticas.

A primeira questão essencial é compreender que o hidrogênio não é uma solução única para a descarbonização, mas pode desempenhar um papel crucial em aplicações específicas, especialmente nos setores de difícil eletrificação (hard-to-abate emissions), como as indústrias de aço e cimento, que estão entre as maiores emissoras de gases do efeito estufa. O segundo ponto fundamental é que o crescimento desse vetor energético pode gerar uma demanda significativa para a indústria nacional de engenharia, equipamentos e serviços industriais, contribuindo para o fortalecimento e a diversificação da produção industrial no país. Terceiro, a transição energética, na qual a economia do hidrogênio está inserida, envolve também a descarbonização dos transportes. Isso inclui a expansão dos veículos elétricos e a cadeia produtiva das baterias, além do desenvolvimento de novos biocombustíveis para aviação (SAF) e para o setor marítimo (bio-bunker). 

É amplamente reconhecido por analistas e estudiosos da economia que o Brasil enfrenta um processo de primarização da sua estrutura produtiva, com uma pauta exportadora excessivamente concentrada em commodities minerais e agrícolas e em produtos de baixa complexidade tecnológica. Para mudar esse cenário, é essencial ampliar a produtividade e a competitividade da indústria nacional por meio do progresso tecnológico e do melhor aproveitamento das vantagens comparativas do país, como seu vasto potencial em fontes renováveis, incluindo vento, sol, biomassa e biodiversidade. Essa transição pode reposicionar o Brasil no comércio internacional, agregando maior valor à sua produção industrial. 

A produção de hidrogênio verde poderá impulsionar toda a indústria de bens de capital voltada para a geração de energia renovável, como eólica, solar e biocombustíveis. A grande discussão global hoje gira em torno da substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis, e o principal caminho no médio prazo é a eletrificação baseada em fontes limpas. Atualmente, a média mundial da matriz elétrica contém apenas 22% de fontes renováveis, com a meta global de atingir 51% em 2050. O Brasil, no entanto, está mais de 25 anos à frente desse objetivo, pois mais de 90% de sua matriz elétrica já é renovável. Além disso, o país possui reservas estratégicas de minerais críticos para a transição energética e pode produzir manufaturados verdes tanto para o mercado interno quanto para exportação.

Estamos vivendo um processo acelerado de transformação das infraestruturas de produção e consumo de energia, impulsionado pela transição energética. Dados recentes do relatório do Hydrogen Council mostram que existem quase 1.600 projetos em desenvolvimento no mundo, sendo 15% deles na América Latina, com investimentos na ordem de 700 bilhões de dólares. O avanço da indústria de hidrogênio verde, especialmente pela rota da eletrólise, estimula diretamente o desenvolvimento da indústria de energias renováveis, sendo que quase 90% dos projetos no Brasil estão concentrados no Nordeste. Para cada gigawatt de hidrogênio produzido, são necessários cerca de 2 gigawatts de energia eólica onshore, 1 gigawatt de energia eólica offshore ou até 4 gigawatts de energia solar fotovoltaica, o que demonstra o impacto significativo dessa cadeia na geração de energia renovável. 

Aproveitar plenamente essas oportunidades exige que a indústria nacional desenvolva conhecimento e capacidade técnica para projetar e fabricar os conjuntos, subsistemas, equipamentos e materiais necessários para a produção, transporte e armazenamento de hidrogênio. Isso inclui desde as plantas de eletrólise até a infraestrutura de distribuição, como gasodutos, caminhões, cilindros e navios, além da aplicação do hidrogênio em setores estratégicos, como refinarias, indústrias de ferro e aço, fertilizantes e transporte pesado. Também é fundamental identificar sinergias com outros setores industriais que já produzem equipamentos e insumos semelhantes, para fortalecer a participação da indústria nacional não apenas na produção de hidrogênio como commodity, mas também na construção da infraestrutura necessária para essa nova economia. 

Com base nessas informações, torna-se possível correlacionar dados econômicos, identificar onde esses equipamentos já são produzidos, quais empregos são gerados, quais são os volumes de vendas e importação e, a partir disso, avaliar a competitividade dos fornecedores nacionais. Essas análises são essenciais para o desenvolvimento de políticas públicas que aumentem a competitividade da indústria brasileira nesse setor estratégico. 

Nesse sentido, é imprescindível estruturar um conjunto de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da economia do hidrogênio no Brasil. Primeiramente, é necessário investir no desenvolvimento tecnológico e na inovação do setor, por meio de políticas de ciência, tecnologia e inovação. Também é fundamental adotar medidas para fortalecer a cadeia produtiva nacional, utilizando políticas industriais e de comércio exterior que estimulem a produção local. Além disso, uma estratégia inteligente de política energética e climática deve promover a descarbonização da indústria nacional, enquanto políticas econômicas focadas no desenvolvimento regional e na geração de empregos devem garantir que os benefícios da economia do hidrogênio sejam amplamente distribuídos. 

A transição energética terá um impacto expressivo na geração e manutenção de empregos industriais ao longo de toda a cadeia produtiva, desde a fabricação até a operação e manutenção dos ativos. O setor eólico, por exemplo, já gera muitos empregos no Nordeste, e essa tendência se intensificará com a crescente demanda por hidrogênio. Da mesma forma, a expansão das energias renováveis, a economia circular, a mobilidade elétrica, o biorrefino e a construção civil sustentável abrirão novas oportunidades de emprego e desenvolvimento econômico. 

Para que o Brasil se consolide como um ator relevante na cadeia global do hidrogênio verde, é necessário desenvolver tanto a capacidade de produção quanto os usos finais dessa tecnologia, além de garantir a fabricação de equipamentos estratégicos para essa nova indústria. Atualmente, a produção de eletrolisadores está concentrada em países da OCDE, e as empresas líderes desse mercado já estão estruturando suas cadeias de fornecedores. O Brasil não pode esperar que essa indústria se estabeleça espontaneamente no país, sendo essencial um esforço coordenado para inserção da indústria nacional nesse mercado emergente.

Estima-se que cerca de 50% do valor dos equipamentos e insumos necessários para uma planta de hidrogênio possam ser produzidos localmente, e o próprio BNDES adota essa estimativa como referência. Apesar disso, a inserção competitiva da indústria nacional não será automática. Para viabilizar essa transição, é fundamental avançar na estratégia do Plano Nacional do Hidrogênio (PNH2), com foco no desenvolvimento de competências tecnológicas e produtivas locais. Também é necessário estimular a criação de um mercado doméstico de hidrogênio para promover a descarbonização da indústria nacional. Por fim, o Brasil deve atuar ativamente na promoção da exportação de produtos manufaturados verdes, agregando valor à sua balança comercial e reduzindo sua dependência da exportação de commodities. 

O desenvolvimento industrial viabilizado pela cadeia de valor do hidrogênio verde abrange tanto a geração de energia quanto os usos finais e a fabricação dos componentes essenciais dessa nova indústria. O desafio é garantir que a indústria nacional esteja preparada para capturar essas oportunidades, consolidando o Brasil como um dos protagonistas na transição energética global.

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Radar Legislativo da Indústria é uma publicação da Assessoria Legislativa da ABDI. Visa divulgar a tramitação e a discussão de proposições e leis de interesse da agência, nos plenários e comissões das Casas Legislativas. Sugestões, artigos técnicos e críticas podem ser enviadas para o e-mail: [email protected]