Micro e pequenas empresas do Mato Grosso do Sul que antes esbarravam na burocracia das licitações agora encontram um caminho estruturado para vender ao poder público. Com apoio da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, a rede LicitAI amplia o acesso de negócios ao mercado de compras governamentais por meio de uma plataforma digital que busca editais, organiza documentos e reduz barreiras técnicas.
Formada pela startup Econect, pela Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e pelo Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, a rede funciona como um marketplace de oportunidades e já impacta 150 empresas. No ano passado, recebeu aporte de R$ 380 mil da ABDI ao ser premiada na categoria Capacitação e Desenvolvimento de Recursos Humanos do edital Ecommerce.BR. Criado pela Agência em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), o programa busca impulsionar o comércio eletrônico nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Na semana passada, técnicos da ABDI e do MDIC iniciaram visitas às nove redes selecionadas para a etapa piloto. No estado, além da LicitAI, a agenda incluiu a Rede Ecommerce Mais Produtivo. Para Victor Teles, analista de Inovação e Produtividade da ABDI, a iniciativa amplia mercados e fortalece a sustentabilidade das empresas. “Os micro e pequenos negócios passam a compreender de forma simplificada todas as etapas do processo licitatório, com apoio técnico e acompanhamento contínuo.”
A tecnologia é o eixo central do projeto. “Com inteligência artificial própria, operamos uma base de dados segura que permite que a empresa comece do zero e chegue até a assinatura de um contrato”, afirma Eduardo Feitosa, CEO da Econect. Segundo ele, a meta é elevar em 30% a maturidade digital e em 25% as vendas on-line das empresas atendidas. O modelo em rede, acrescenta, foi decisivo para aprimorar o produto e alcançar as metas.
À universidade cabe o suporte técnico-científico, com mentorias, consultorias, pesquisa aplicada, espaço de coworking e apoio da incubadora. “É fundamental que a universidade esteja mais próxima da realidade do mercado de trabalho”, afirma Gedson Faria, professor de computação da UFMS. Ele destaca que inovação, pesquisa, ensino e extensão são pilares institucionais. “Quando a inteligência artificial desenvolvida na universidade é aplicada no desenvolvimento regional, ampliando vendas e incentivando o e-commerce, cumprimos nosso papel econômico e social.”

Impacto nas empresas locais
Em Coxim, no norte do estado, a CR Veículos mudou de rota após aderir à rede. Antes focada na locação para o público privado, a empresa venceu sua primeira licitação pública com apoio da plataforma e projeta ampliar a frota, hoje com 10 carros. “A ferramenta mostrou o quanto estávamos alheios ao mercado digital. Foi com o uso da LicitAI que conquistamos nossa primeira licitação. Agora já estamos de olho em outras oportunidades”, afirma Indianara Figueiroa, responsável pela empresa.
A Therafy, que desenvolve atividades cognitivas e sociais em realidade virtual para crianças e adolescentes com autismo e TDAH, também ampliou sua estratégia. Presente em dois municípios do estado e em mais de 90 clínicas no país, a startup já havia vencido duas licitações, mas enfrentava dificuldades na busca de informações. “A plataforma nos dá segurança e um mapeamento completo das oportunidades”, afirma a fundadora Francyelle Marques. Desde novembro do ano passado, a empresa participa de dois novos processos com assessoria da rede.
Na área da saúde, a Brasil MED, que fornece medicamentos, insumos e equipamentos para hospitais do SUS e da rede privada, registrou crescimento de 30% nas vendas em três meses. “Hoje, em poucas horas, consigo localizar editais, organizar a documentação e participar de mais pregões eletrônicos”, diz a presidente Nilza Marques. Cerca de 90% do atendimento da empresa é voltado ao governo.
Já a Portes Advogados reduziu drasticamente o tempo de análise de editais. “O que levava até três dias, hoje resolvemos em cerca de 10 minutos”, afirma a sócia Karolaine Princival. Um cliente venceu licitação de R$ 3 milhões com apoio da ferramenta, passando de micro para média empresa. “O chat trabalha apenas com as informações daquele edital, o que garante precisão e amplia as possibilidades”, diz.

Edital E-commerce.BR
O edital destinará R$ 4,92 milhões para fomentar vendas on-line e prevê impactar mais de 1.000 empresas fora do eixo Sul-Sudeste até o fim de 2026. Na fase piloto, nove projetos receberam R$ 380 mil cada, e três avançarão para a etapa de escala, com aporte adicional de R$ 500 mil.
No Mato Grosso do Sul, foram selecionadas as redes Ecommerce Mais Produtivo e LicitAI. No Centro-Oeste, quatro iniciativas contempladas somam R$ 1,5 milhão em investimentos. Goiás também teve dois projetos selecionados.
O comércio eletrônico movimentou R$ 225 bilhões no Brasil em 2024, crescimento de 14,6% em relação ao ano anterior, segundo o MDIC. Apesar da expansão, a concentração regional permanece elevada: o Sudeste responde por 77,2% das vendas on-line, enquanto o Centro-Oeste representa 2,5%.
“Os dados mostram os desafios da digitalização fora dos grandes centros. No Mato Grosso do Sul, vemos uma rede estruturada, com atuação coordenada para incluir empresas no ambiente digital”, afirma Rodrigo Lobato, analista de Comércio Exterior do MDIC.
Texto e fotos: Elton Pacheco