Com o objetivo de transformar a vida de pessoas com deficiência visual por meio da inovação, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em parceria com o Governo do Paraná, lançou o Desafio de Inovação Bengalas Inteligentes. A iniciativa busca desenvolver tecnologias assistivas capazes de detectar obstáculos acima da linha da cintura, uma lacuna ainda não atendida pelas bengalas tradicionais disponíveis no mercado.
A ação integra o trabalho do Hubtec, o primeiro Escritório de Encomendas Tecnológicas do país, criado pela ABDI para fomentar compras públicas voltadas à inovação. A chamada pública, inédita no Brasil, se destaca por estimular o desenvolvimento de soluções tecnológicas focadas em acessibilidade, segurança, mobilidade e qualidade de vida para pessoas cegas ou com baixa visão.
Para explicar a iniciativa, a equipe do “Explica aí, ABDI” conversou com a analista de Produtividade e Inovação da Agência Bruna de Castro. “O concurso nasce de uma necessidade social urgente, mas também como uma grande oportunidade de integrar o ecossistema de inovação nacional em prol da inclusão”, explica Bruna.
Segundo a analista, o objetivo final do desafio é desenvolver um protótipo de bengala inteligente economicamente viável que possa ser produzido em larga escala para atender o mercado brasileiro, inclusive o Sistema Único de Saúde (SUS). “Uma tecnologia nacional que pode transformar e contribuir para a inclusão social de milhares de brasileiros”, aponta a analista.
De acordo com o IBGE, cerca de 6,5 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência visual, sendo 582 mil cegos. No Paraná, são mais de 82 mil pessoas com deficiência visual. Veja a entrevista na íntegra:
“Explica aí, ABDI”: O que motivou a criação do Desafio de Inovação Bengalas Inteligentes?
Bruna de Castro: Criado pela ABDI, o Hubtec é o primeiro Escritório de Encomendas Tecnológicas do Brasil e tem a missão de difundir os instrumentos de compras públicas, à luz do novo Marco Legal de Ciência, Tecnologia & Inovação (CT&I), e de capacitar gestores públicos responsáveis por compras de inovação, seja por meio de Encomendas Tecnológicas, Diálogos Competitivos, Contratos Públicos de Solução Inovadora (CPSI) ou Concursos de Inovação.
Fruto de um convênio entre a ABDI e o Governo do Paraná, o Desafio de Inovação Bengalas Inteligentes é um concurso que surgiu a partir de duas grandes oportunidades: a primeira, de colaborar com o governo paranaense na execução do primeiro concurso de inovação do país voltado para tecnologias assistivas; e a segunda – e mais nobre – de mobilizar as redes de inovação de todo o país na resolução de um grande desafio público que é promover maior mobilidade, segurança e qualidade de vida para pessoas com deficiência visual usuárias de bengalas.
“Explica aí, ABDI”: Quais são as principais limitações das bengalas tradicionais e como as inovações propostas no desafio podem superá-las?
Bruna de Castro: A Constituição Federal, em seu art. 227, parágrafo 2, prevê como um dever do Estado assegurar os direitos de dignidade e acessibilidade. Segundo o IBGE, há no Brasil cerca de 6,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência visual, sendo cerca de 582 mil pessoas cegas. Dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) apontam que há, no Paraná, aproximadamente 80 mil pessoas que não conseguem enxergar de forma alguma ou possuem grande dificuldade, sendo que uma proporção significativa desse público depende de bengalas tradicionais para a locomoção.
As bengalas tradicionais, amplamente vendidas no mercado ou distribuídas pelo SUS, são, em grande parte, de baixa durabilidade e limitadas em termos de tecnologia e qualidade. O artefato atende de forma precária a necessidade de locomoção e não oferece suporte adequado para a antecipação de obstáculos aéreos, acima da linha da cintura do usuário, como galhos de árvores ou placas suspensas, por exemplo. Esse cenário pode trazer enormes riscos de integridade física aos deficientes visuais.
A proposta do concurso “Bengalas Inteligentes” é apresentar ao mercado esse desafio coletivo e estimular a criação de soluções que possam ser acopladas à bengala para a detecção e antecipação de obstáculos acima da linha da cintura do usuário, de forma a proporcionar maior mobilidade, qualidade de vida e segurança no seu direito fundamental e constitucional de ir e vir.
“Explica aí, ABDI”: Quais tecnologias podem ser incorporadas às bengalas inteligentes para permitir a detecção de obstáculos acima da linha da cintura?
Bruna de Castro: O primeiro ponto a ser ressaltado é que a solução-alvo desse desafio não poderá descartar o uso da bengala. Ao contrário, deve ser integrada, acoplada ao artefato. Durante as oficinas de Design Thinking realizadas com o público-alvo do concurso, percebemos que a bengala é uma extensão do corpo da pessoa cega e atua como dispositivo de orientação, mobilidade e mapeamento de obstáculos no chão. Ou seja, todas as soluções inscritas no concurso devem considerar o uso da bengala e a integração a ela, de forma a colaborar com o usuário na prevenção e antecipação dos obstáculos acima da linha da cintura. Com relação às tecnologias a serem incorporadas, ficará a critério dos times inscritos. Por isso, convidamos startups, empresas inovadoras, Institutos de Ciência e Tecnologia, pesquisadores e empreendedores que possuam CNPJ a inscreverem suas soluções e a participarem dessa grande corrente do bem. Estamos confiantes de que as tecnologias digitais e suas infinitas possibilidades de aplicações poderão ser grandes aliadas na criação de uma bengala inteligente.
“Explica aí, ABDI”: Como a ABDI, em parceria com o Governo do Paraná, pretende incentivar a adoção e a produção dessas novas tecnologias assistivas no Brasil?
Bruna de Castro: Considerada centro de referência na formulação e execução de ações com foco na inovação e no desenvolvimento tecnológico do setor produtivo nacional, a ABDI tem como base a implementação de projetos pilotos de transformação digital para a indústria, agronegócio, comércio e serviços. A Agência também possui trajetória consolidada em parcerias público-privadas, o que facilita a implementação de soluções tecnológicas para problemas econômicos e sociais, como, por exemplo, tecnologias voltadas para a inclusão de pessoas com deficiência visual.
No caso do Desafio Bengalas Inteligentes, a ABDI, em parceria com as Secretarias de Inovação e Inteligência Artificial (SEI) e de Desenvolvimento Social e Família (SEDEF) do Paraná, tem a missão de selecionar, avaliar e premiar soluções inovadoras em bengalas, que estejam em nível de protótipo e tenham condições e viabilidade para escalar no mercado.
O grande objetivo é que esses protótipos, após testes em circuitos reais feitos por usuários reais, possam ser produzidos em larga escala para atender ao mercado nacional, seja o privado e, se possível, por meio de compra pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Uma tecnologia nacional que pode transformar e contribuir para a inclusão social de milhares de brasileiros.
“Explica aí, ABDI”: Além do prêmio, de que forma os projetos vencedores poderão ser desenvolvidos e aplicados na prática?
Bruna de Castro: Dividido em duas etapas, o concurso vai distribuir R$ 2,8 milhões em prêmios. Na primeira fase, serão selecionados até 10 projetos em fase de conceito, e cada um será premiado com R$ 180 mil para que possam desenvolver a ideia para o nível de protótipo. Na segunda fase, será realizado o Dia do Desafio, ocasião em que esses 10 projetos finalistas participarão de pitchs (apresentações do projeto em estilo Shark Tank) e passarão por testes em ambiente real, feitos por usuários de bengalas. Ao final desse dia, serão avaliadas e escolhidas as 3 melhores soluções, de acordo com critérios previstos no edital. Serão premiadas simbolicamente com R$ 200 mil (3º lugar), R$ 300 mil (2º lugar) e R$ 500 mil (1º lugar). Após a fase recursal e a premiação em dinheiro, os três finalistas receberão assessoramento técnico da ABDI para acessar o ecossistema de inovação brasileiro e internacional, a fim de possibilitar a escala das soluções no mercado nacional.
“Explica aí, ABDI”: De que forma iniciativas como essa contribuem para o avanço da transformação digital e da Indústria 4.0 no setor de tecnologias assistivas?
Bruna de Castro: Imbuída da missão de formular, executar e monitorar projetos e ações que contribuem para o desenvolvimento do setor produtivo nacional, alinhados com a Nova Indústria Brasil (NIB), a ABDI pretende, com esse concurso, promover a transformação digital da indústria, tornando-a mais competitiva, tecnológica, eficiente e sustentável. Ao lançar o primeiro concurso do país em tecnologias assistivas, estamos lançando luz a um problema coletivo e enfrentado todos os dias por brasileiros e brasileiras. Estamos falando de um contingente de mais de 500 mil pessoas em todo o país, que requer políticas públicas de inclusão efetivas. O direito de ir e vir é fundamental e garantido pela Constituição Federal. Ao lançarmos um concurso com esse objetivo, aproximamos a indústria e as redes de inovação dos problemas e desafios reais do nosso país. Com essa iniciativa, a ABDI pretende difundir e estimular o uso das tecnologias digitais e da inovação a serviço da mobilidade, autonomia e segurança dos usuários de bengalas. Tecnologia e inovação em favor da inclusão social.