Explica aí, ABDI: Eficiência Energética

Explica aí, ABDI: Eficiência Energética

O Brasil avança no uso racional e eficaz da energia, mas ainda enfrenta desafios para se destacar globalmente. Parcerias como a da ABDI com o MME e a Clasp buscam otimizar a indústria nacional alinhando inovação e sustentabilidade

A eficiência energética tem se consolidado como um tema essencial nas discussões sobre sustentabilidade e descarbonização global. O assunto ganha ainda mais destaque no Brasil, que se alinha com as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e com o desafio de tornar a indústria nacional mais competitiva no mercado internacional.        

Nesta edição do “Explica Aí, ABDI”, a analista de Produtividade e Inovação da Unidade de Nova Economia e Indústria Verde Marcia Oleskovicz aborda a importância da eficiência energética tanto para a indústria quanto para os consumidores e o meio ambiente. A analista da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) destaca os avanços e desafios enfrentados pelo Brasil nesse campo, apresenta as principais iniciativas e legislações voltadas para o tema e examina o impacto de projetos em andamento, como aqueles desenvolvidos pela Agência em colaboração com o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Clasp.
   

 1. O que é eficiência energética e por que ela é importante para a indústria e para os consumidores?

Marcia Oleskovicz: Eficiência é, por definição, fazer mais com menos. Quando se trata de energia, a ideia é usar os recursos de modo mais racional e inteligente, sem comprometer o desempenho ou a qualidade das atividades realizadas. Reduzir a utilização de energia significa poupar não só na conta de luz, mas na necessidade de produção de energia.

A indústria se beneficia em várias frentes. O setor industrial brasileiro responde por mais de 30% do consumo final de energia e quase 40% da eletricidade consumida no país. Com maior eficiência energética podem reduzir seus custos operacionais e conquistar diferencial de mercado, o que tem reflexo direto na competitividade. Com produtos mais eficientes, podem abrir novos mercados exportadores, que contam com regulamentações e exigências mais altas para a entrada de produtos importados. Além disso, a eficiência energética permite reduzir o impacto ambiental das atividades industriais, contribuindo para o cumprimento de metas de emissões de gases de efeito estufa e a preservação dos recursos naturais – o que também é uma vantagem para o consumidor e para a sociedade.

Ainda para o consumidor, a redução na conta de energia elétrica pode ser a diferença entre adquirir ou não um produto. O mercado interno terá uma oferta de produtos melhores e mais sustentáveis, com maior desempenho e conforto, especialmente nos sistemas de climatização, iluminação e aquecimento – demanda exponencial em uma situação de emergência climática como a que vivemos.

2. Qual é o cenário atual da eficiência energética no Brasil? Como o país se compara a outras nações?

O Brasil tem avançado na questão de eficiência energética, mas ainda há muito a se percorrer na comparação com economias globais. Países como Dinamarca, Alemanha e Reino Unido já trabalham com padrões elevados e possuem regulamentações que barram produtos que não atinjam o patamar de eficiência exigidos. A China, por exemplo, já conta com uma política clara de eficiência energética. Países em desenvolvimento, como Quênia e Nigéria, também estão muito à frente do Brasil. É preciso entender as capacidades nacionais e incentivar, cada vez mais, a adoção de práticas e processos mais eficientes energeticamente.

3. Como a indústria brasileira tem se adaptado para melhorar a eficiência energética em seus processos e produtos?

Com destacadas exceções, não há como afirmar que a indústria tem se movimentado no sentido de oferecer ao mercado produtos mais eficientes energeticamente, por não haver estudos profundos que avaliem essa questão com segurança.

Para dar subsídios para que indústria e governo possam pensar estrategicamente políticas de eficiência energética, a ABDI buscou o Ministério de Minas e Energia e houve imediata convergência no assunto, resultando em uma parceria entre as entidades, especialmente no setor HVAC-R (acrônimo para Aquecimento, Ventilação, Ar-Condicionado e Refrigeração, em inglês). Somou-se a este esforço a Clasp, uma das organizações não governamentais mais importantes nas questões de eficiência energética pelo mundo.

A ABDI entende que há uma janela de oportunidade de reinserção da indústria brasileira nas cadeias globais de valor deste setor, com produtos e equipamentos mais sustentáveis, que se alinham aos esforços coordenados de política industrial, descarbonização e transição energética propostos pela Nova Indústria Brasil, a NIB.

Neste sentido, a parceria com o MME e com a Clasp vem justamente para levantar e analisar estes dados, com fontes e validação das empresas, e transformar as informações em proposta de política pública.

É importante destacar que as políticas de eficiência energética podem ser associadas às políticas de adensamento de cadeias produtivas locais, diminuindo a dependência de produtos importados e estimulando a indústria local, o que tem total convergência com as missões e objetivos da NIB.

4. Quais são as principais legislações e regulamentos brasileiros voltados para eficiência energética?

Entre os programas mais importantes nesta área temos o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE), do Inmetro, que visa informar os consumidores sobre a eficiência energética dos produtos, incentivando escolhas conscientes e estimulando a inovação na indústria; o Procel/ENBPar, que promove o uso eficiente de energia em edificações, iluminação pública e setores públicos e privados; a Política Nacional de Eficiência Energética (PNEf), de 2001, que foca na melhoria da eficiência nos setores industrial, de transporte e construção civil; e o Programa de Eficiência Energética (PEE), que exige investimentos das concessionárias em projetos de eficiência, entre outros.

5. Quais desafios e oportunidades o Brasil enfrenta para ampliar a adoção de práticas mais eficientes no setor HVAC-R?

O foco do projeto que a ABDI desenvolve com o MME e a Clasp está na equiparação dos níveis de eficiência energética dos produtos nacionais do setor HVAC-R com os parâmetros internacionais. A ideia é tornar o setor mais competitivo no mercado externo e elevar a qualidade dos produtos oferecidos ao mercado interno.

A articulação entre os atores públicos e privados envolvidos nas questões de eficiência energética e entre as políticas de eficiência energética e a política industrial, a NIB, é um grande desafio que a ABDI assume neste projeto. O papel da Agência será fundamental para desenvolver uma proposta de política pública robusta, com base na realidade produtiva brasileira e de acordo com as melhores práticas internacionais do setor.

Há uma grande dificuldade em extrair do setor dados de investimento, de inovação e de participação de mercado, informações fundamentais para o mapeamento desta cadeia de valor. Além disso, a indústria carece de estímulos e incentivos para inovar, como centros atualizados de pesquisa e desenvolvimento, fontes de financiamento, entre outros, e é preciso orquestrar as diversas iniciativas neste sentido.

O projeto, ainda, dará à indústria nacional um panorama mais claro a respeito dos gargalos do setor, potencialidades e capacidades, o que é possível acrescentar de desenvolvimento de conteúdo local, no que somos competitivos e onde teremos que nos aliar a outros mercados.

6. Quais são as tendências e debates mais recentes sobre eficiência energética no país e no mundo?

A eficiência energética compõe um dos pilares da sustentabilidade e está entre as prioridades estratégicas do mundo todo, sobretudo em tempos de emergência climática.

O tema está no cerne da pauta de descarbonização do Brasil e do mundo e deverá ser um dos grandes debates da COP30. Embora o Brasil tenha uma matriz energética consideravelmente limpa (49,1% de renováveis), há um crescente e necessário foco na melhoria da eficiência energética para reduzir ainda mais as emissões de gases de efeito estufa (GEE). A ordem é consumir menos e, consumindo, que a energia seja de fontes limpas.

A transição para fontes renováveis em processos industriais, construção civil e transporte – grandes emissores de gases poluentes – é um dos principais desafios e objeto de discussões em fóruns globais, acordos de clima e tratados entre países. A eletrificação da frota veicular e o uso de biocombustíveis, a construção de edificações “inteligentes”, mais resilientes às variações de temperatura e com utilização de novas tecnologias, a substituição de queima de combustíveis fósseis em setores da indústria pesada, como cimento, aço, petroquímica e mineração, são exemplos de iniciativas essenciais para o futuro.