Como saber se a indústria brasileira está prestes a crescer ou desacelerar? Essa é a pergunta que a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) pretende responder com o novo Índice ABDI de Sustentabilidade da Expansão Industrial (ISEI). Lançado recentemente, o indicador fornece projeções trimestrais que ajudam a antecipar tendências da indústria de transformação, setor estratégico da economia nacional.
Segundo Roberto Pedreira, gerente de Monitoramento e Avaliação da Agência, “o ISEI oferece uma visão estratégica que sintetiza sinais da economia para projetar o desempenho da produção industrial nos próximos três meses”. No quadro Explica Aí, ele detalha como o ISEI funciona, os destaques do primeiro boletim e de que forma o índice pode apoiar decisões de empresários, gestores públicos e formuladores de políticas industriais.
1. O que é o ISEI e qual a importância desse novo indicador para a indústria brasileira?
Pedreira: O Índice ABDI de Sustentabilidade Industrial (ISEI) é um indicador desenvolvido pela Agência que antecipa tendências de curto prazo na produção da indústria de transformação brasileira. Com base em dados do IBGE, Banco Central, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o ISEI realiza cálculos que permitem identificar o comportamento esperado do setor nos próximos três meses. O objetivo é oferecer uma visão estratégica, sintetizando sinais da economia que ajudam a projetar o desempenho da produção industrial no curto prazo.
2. Como o ISEI funciona na prática? Que dados ele analisa e com que frequência será divulgado?
Pedreira: O ISEI é divulgado trimestralmente pela ABDI, e o próximo boletim está previsto para agosto deste ano. O indicador é calculado a partir de três subíndices que ajudam a traçar um retrato preciso da indústria de transformação no Brasil: o Índice de Crescimento Esperado da Demanda (ICED), que estima a possível expansão na procura por produtos industriais; o Índice de Qualidade do Crescimento Industrial (IQCI), que avalia se o setor atravessa um momento de força ou fragilidade no curto prazo; e o Índice de Comércio Exterior (ICE), que mede o nível de competitividade internacional da indústria brasileira.
Esses subíndices são construídos com base em variáveis mensais que buscam responder a questões fundamentais, como a existência de demanda suficiente para os bens industriais produzidos no país, a saúde financeira das empresas do setor e o grau de competitividade da indústria nacional frente aos concorrentes estrangeiros. As variáveis passam por um tratamento estatístico que compara seus valores em relação à média dos 12 meses anteriores, permitindo a criação de uma escala com valor neutro fixado em 100 pontos. Qualquer resultado acima desse patamar é interpretado como positivo, sinalizando otimismo. Por exemplo, um ICED acima de 100 pontos indica expectativa de demanda sólida para os próximos meses.
A partir da ponderação dos três subíndices, chega-se ao valor final do ISEI. A lógica de leitura é a mesma: resultados acima de 100 pontos refletem perspectivas positivas para a produção industrial brasileira no curto prazo, quanto maior o número, maior o otimismo.
3. Quais foram os destaques do primeiro boletim do ISEI divulgado em 2025?
Pedreira: O primeiro boletim do ISEI trouxe como principal destaque a recuperação da indústria de transformação brasileira após os impactos vividos nos dois primeiros anos da década. Os efeitos da pandemia de COVID-19, somados ao cenário macroeconômico instável entre 2019 e 2022, vinham afetando o desempenho do setor, mas começaram a ser superados gradualmente. A partir de 2024, o índice entrou consistentemente no campo otimista com valores acima de 100 pontos, indicando expectativas positivas para os meses seguintes.
Entre os subíndices que compõem o ISEI, o Índice de Crescimento Esperado da Demanda (ICED) se destacou. O indicador apontou uma recuperação prolongada da demanda por bens industriais, que agora se mantém firmemente em terreno otimista, reforçando a percepção de retomada da confiança no setor produtivo nacional.
4. De que forma o ISEI pode orientar políticas públicas e decisões estratégicas do setor privado?
Pedreira: O ISEI foi criado com o objetivo de apoiar a tomada de decisões estratégicas no curto prazo, especialmente no setor privado industrial. Empresários e executivos frequentemente enfrentam o desafio de tomar decisões com base em informações confiáveis sobre variáveis como compras, capital de giro, produção e níveis de estoque.
Nesse contexto, o indicador oferece uma ferramenta de fácil leitura, sustentada por uma base estatística robusta, capaz de orientar previsões e tornar as escolhas mais precisas e seguras. Além do setor privado, o ISEI também se mostra valioso para a gestão pública. Ao monitorar de forma sistemática a atividade industrial, o índice permite ao Governo Federal identificar variações fora do padrão sazonal e agir rapidamente diante de possíveis desequilíbrios. Com isso, o indicador se consolida como um instrumento relevante para o acompanhamento da conjuntura econômica e para a formulação de respostas mais ágeis por parte do Estado.
5. O que o ISEI aponta sobre o futuro da indústria brasileira? Há expectativa de crescimento sustentável?
Pedreira: Como já destacado, o ISEI tem foco na previsão de curto prazo e aponta para a continuidade da expansão da produção industrial brasileira em 2025, especialmente no próximo trimestre. No entanto, o cenário é mais cauteloso. Fatores recentes, como a aceleração global da inflação de alimentos, a elevação inesperada da taxa básica de juros (Selic) e a guerra tarifária imposta pelos Estados Unidos, trouxeram incertezas e esfriaram o otimismo do setor privado nacional.
Esses elementos são destacados no Boletim ISEI nº 1, que ressalta que, embora a trajetória da indústria de transformação siga positiva, o ritmo de crescimento esperado para 2025 não deve repetir o desempenho observado em 2024. Em síntese, a expectativa é de alta na produção industrial, mas em um patamar mais moderado diante dos novos desafios econômicos.